
A Europa tem ciência, indústria e tecnologia espacial, mas continua dependente de terceiros em áreas estratégicas como os lançamentos, as comunicações e o transporte de astronautas. Na Cimeira Internacional do Espaço decorre em Paris, o presidente da Agência Espacial Portuguesa, Ricardo Conde, defende que o desafio já não é provar capacidade, mas ganhar escala, investir e decidir em conjunto.
A nova corrida espacial já não se joga apenas na conquista da Lua ou de Marte. Joga-se no controlo das comunicações, dos dados, dos sistemas de navegação, das infra-estruturas digitais e, cada vez mais, da segurança. É neste cenário que Paris acolhe desde ontem, 9 de Setembro, a primeira Cimeira Internacional do Espaço, reunindo governos, agências, empresas e investigadores para discutir quem terá capacidade de agir e de decidir na próxima economia espacial.
Para a Europa, a questão tornou-se urgente. Entre a supremacia tecnológica dos Estados Unidos, a afirmação da China e o crescimento acelerado de empresas privadas, o continente procura perceber como preservar a cooperação internacional sem transformar essa cooperação numa dependência estrutural.
O presidente da Agência Espacial Portuguesa e chefe da delegação portuguesa no Conselho da Agência Espacial Europeia, Ricardo Conde, começa por rejeitar a ideia de um espaço organizado em blocos fechados. “O espaço nunca se fez, nem nunca se fará, que não seja em cooperação”, afirma, lembrando programas como o Artemis e domínios em que a coordenação entre países é incontornável, como a gestão do tráfego espacial.
Mas cooperar não significa abdicar de capacidade própria. “A Europa, e muito bem, procura afirmar a sua resiliência, no sentido de ter alguma autonomia”, sublinha. Para Ricardo Conde, os últimos anos mostraram até que ponto a dependência pode tornar-se uma fragilidade económica, tecnológica e política.
A pandemia expôs a vulnerabilidade causada pela desindustrialização; a crise energética revelou os riscos de depender de fornecedores externos; e a guerra na Ucrânia voltou a colocar no centro do debate a dependência europeia dos Estados Unidos em matéria de defesa. “Quando se reage e não se planeia, andamos sempre numa situação de dependência”, observa.
O responsável português descreve a Europa como “uma federação de vontades, às vezes boas, outras vezes nem por isso”. E considera que o espaço é hoje um dos terrenos onde essa dificuldade de construir uma estratégia comum se torna mais evidente.
A soberania espacial está, desde logo, ligada à soberania digital. “Ninguém pode constituir-se como resiliente, independente ou autónomo quando está completamente dependente das grandes multinacionais e das grandes empresas americanas em serviços”, alerta. O exemplo mais evidente é o Starlink. A guerra na Ucrânia demonstrou o peso estratégico da constelação de satélites da SpaceX na manutenção das comunicações. A Europa ainda não dispõe de uma alternativa equivalente e prepara a constelação IRIS², destinada a garantir comunicações seguras e maior autonomia europeia, mas cuja plena capacidade só deve chegar no final da década.
A navegação por satélite mostra, contudo, que a dependência pode ser reduzida. Durante décadas, a Europa viveu sob a predominância do GPS norte-americano. Hoje dispõe do Galileo, desenvolvido para assegurar uma capacidade europeia própria. Para Ricardo Conde, é esse tipo de autonomia que terá de ser construído também noutros segmentos. Um deles é o acesso ao espaço. “Quem controla, ou quem controlar, o acesso ao espaço controla a economia espacial”, afirma.
A Europa dispõe actualmente do Ariane 6 e do Vega e começa a assistir ao aparecimento de uma nova geração de lançadores privados. Ricardo Conde vê nesta evolução a possibilidade de criar maior concorrência dentro do próprio continente. “Vai haver uma alteração profunda ao nível da competitividade de que a Europa necessita. Vão aparecer novos lançadores.”
Mas permanece uma diferença